Certos relacionamentos tem fim trágicos e ficam com aquele aspecto inacabado. As lembranças, que antes eram tão vivas, vão parar em uma caixa de memórias idiotas com ingressos de cinema, papéis de bala, bilhetes e coisas que não significam nada para ninguém além de você.
Por isso a gente acabou é sobre essas lembranças, essas caixas que guardam mais que objetos sem sentido, mas sentimentos – o feeling – e a memória de algo que foi ou poderia ter sido. É isso que
Min compartilha conosco na carta que escreve para
Ed, seu ex-namorado. A carta que vai junto com a caixa, a caixa que guarda todas as lembranças e histórias que fazem Min lembrar de seu relacionamento fadado ao fracasso, porque ele era cocapitão do time de basquete e ela era “diferente” e “das artes”.
Estou escrevendo, nesta carta, toda a verdade sobre o que aconteceu. E a verdade é que, porra, eu te amei demais. (Página 10)
Por isso a gente acabou é um daqueles livros difíceis de falar sobre, porque eu acho – na verdade, tenho certeza – que a Min é a personagem mais parecida comigo que já tive contato até hoje. Não, eu não sou cinéfila como a Min, mas acho que até isso dá para adaptar para algo que se pareça comigo, pois a obsessão da Min em falar de cinema a toda hora e comparar tudo ao cinema pode ser comparada à minha obsessão por livros, porque eu sempre comparo tudo com livros. E a Min é real. Daquele jeito real que chega a irritar, porque eu passei o livro inteiro mandando a Min parar de falar daquele jeito que ela falava, parar de pensar o que ela pensava, porque era irritantemente parecido com meu modo de falar, pensar e, às vezes, até agir. Por mais errado que fosse em certos aspectos, eu me identifiquei com a Min. Me identifiquei de um jeito tão forte que, ao final do livro, eu estava com lágrimas nos olhos porque era muito “ai meu Deus, eu entendo. Eu sei como é, Min”. E eu acho que a gente se daria muito bem.
O mundo entrou nos eixos de novo, o sorriso é por isso. Eu te amava e aqui vão as suas coisas, para longe da minha vida onde você deve ficar, o sorriso é por isso. (Página 12)
Eu já vi gente falando que a Min não parece uma menina de 16 anos, que ela é madura demais, bla bla bla. Talvez eu fosse uma menina de 16 anos muito irritante e diferente, mas eu aos 16 era como a Min. Ela é boba, apaixonada, ingênua… Só que, ao invés de se preocupar com sapatos, se interessa por filmes. É porque, por mais que o Ed esteja errado, ele está certo ao dizer que a Min é “diferente”. E eu gostei dela exatamente porque, mesmo sendo igual, ela era ela mesma, mesmo que ser ela mesma significasse ser alvo de chacotas em alguns momentos, não se encaixar em outros.
O livro tem ilustrações lindas de cada objeto que tem dentro da caixa. Elas são coloridas e completam a experiência de leitura, porque é como se aquele texto não pudesse existir sem elas, como se fossem um só corpo. E o livro tem tantas citações lindas…
E o Ed? Ele é só alguém que não sabia lidar com aquele tipo de coisa, mas que provavelmente aprendeu muito com a Min. Eles dois aprenderam muito, só que para isso eles precisaram sair com corações partidos. Existe culpa, mas é como se os dois soubessem que nada daquilo daria certo, mas ainda assim estavam tentando – e talvez isso que valha mais no “amor” que eles sentiram em algum momento: a tentativa.
Esse livro não é exatamente sobre o momento, o motivo final que fez os dois terminaram, mas sobre as pequenas coisas que fizeram que eles chegassem até lá. E esse livro me trouxe, como a Min chamaria, várias imagens indeléveis à memória.
Entre os livros que falam sobre relacionamento, é esse que achei o mais real de todos. Quando eu vou pensar no que dizer sobre ele eu só fico “esse livro, nossa, nossa, esse livro, nossa” – porque eu realmente não sei explicar o quão lindo ele é, o quanto ele mexeu de um jeito inexplicável comigo. E então eu terminei, olhando a última página, com a ilustração da mesa da cafeteria com a xícara quebrada e eu só pensei em todas as experiências e lembranças que esse livro remexeu.
Eu amo, sinto falta, odeio ter que devolver, essa coisa complicada, foi por isso que a gente ficou junto. (Página 150)
Ele é lindo, é mágico, dói e faz sorrir, tudo ao mesmo tempo. Mexe com memórias tristes e boas, porque é disso que relacionamentos são feitos. Ele fala sobre amor adolescente, talvez não do jeito típico, mas de um jeito que parece verdadeiro, puro. Ed e Min foram um casal que viveu intensamente esse romance adolescente, tão rápido e tão profundo, mas de um jeito que talvez muitos não viverão em uma vida.
O que mais eu posso dizer? Eu amei esse livro. A escrita do Handler é mágica, é como se você estivesse dentro da cabeça da Min e sentindo o mesmo que ela. As coisas se encaixam, se arrumam e ele narra com muito sentimento. As ilustrações da Maira Kalman são complementares ao livro.
Se eu posso dizer mais alguma coisa é: leiam, leiam, leiam, leiam. Eu acabei de ler e já estou com saudades, pensando se posso ler mais uma vez. Não sei se vai agradar a todos, mas me fez tão bem lê-lo e, com certeza, está na lista de melhores do ano. Eu amei esse livro pelos detalhes, em como eles aconteceram e em como ele entrou meio sem querer na minha vida e se transformou em um livro que eu não sei mais como descrever. Se for para dizer a verdade, acho que esse entrou para minha lista de preferidos para a vida.