Daily Archives: 04/12/2011

Papo Literal: "Canto, ó deusa, a Cólera de Aquiles"

Eu não fazia ideia do que escrever na primeira coluna do Papo Literal, mesmo que tenha sido eu que tenha sugerido o espaço para a Iris e arrastado a Dayse comigo. Pensei em ir direto ao que interessa, mas seria esquisito chegar aqui de supetão. Optei por fazer um aquecimento, para ver como as coisas vão andar.

Ultimamente estou passando por uma mudança de curso e, no meio do processo, escolhi algumas matérias inusitadas para cursar. Uma delas é chamada “Introdução aos estudos clássicos” e confesso que quando a escolhi, não fazia ideia do que se tratava. Bem, ela se revelou interessantíssima, ministrada por diversos professores de várias áreas, com a abordagem de vários temas sobre a antiguidade clássica.
Em uma das aulas, um dos professores (Gabrielle, de Filosofia) falou sobre ÉTICA e perguntou quais eram os dois livros que influenciaram a civilização ocidental como conhecemos hoje. Pensei imediatamente na Bíblia. Meus companheiros de classe, porém, responderam com um “A Ilíada!”. Houve surpresa (de ambos os lados, diga-se de passagem), mas os dois estavam certos.

A aula continuou com um o professor fazendo um paralelo entre os acontecimentos da Ilíada e a ética grega. Todo o seu ponto era que uma historinha de ficção revela muito mais sobre o pensamento e do agir da civilização em questão. Aquiles, em sua fúria, é a velha ética, é o velho homem, o selvagem. Ulisses representa a nova ética, o homem da Pólis, o homem astuto.

Os detalhes disso não vem ao caso. Foque na parte da historinha de ficção como espelho da realidade. Podemos argumentar que na época achavam que não era uma história de ficção e sim um relato histórico, mas vamos esquecer disso. Hoje em dia sabemos que não existem deuses, semideuses e outras coisas, mas analisamos a obra para poder tentar entender, por meio do imaginário das pessoas, como elas funcionavam.
Então por que é que até hoje tem gente que insiste que livros de ficção são absurdos e perda de tempo?
Algumas pessoas se esquecem que para criar ficção, qualquer tipo que seja, nós usamos o que somos. Ficou poético, mas é por aí mesmo: um livro é um reflexo das vivências, das observações e das vontades do autor. É um pedaço da alma dele. É um espelho do mundo em que ele vive.
Aí entramos no meu gênero favorito, que é o mais marginalizado pela maior parte das pessoas: a ficção científica. Vou adicionar a fantasia como subgênero só para tornar mais fácil também. A maior parte das pessoas que se dizem sérias, acham que ler um livro de ficção científica uma perda de tempo ou que eles são viajados e absurdos. Ou ainda acham que são coisas para crianças ou pessoas mentalmente incapazes de ler algo com mais consistência.

Todas as vezes que ouço alguém dizer isso, tenho vontade de cometer um homicídio. Muitas vezes, as pessoas que dizem isso são pessoas que sequer conhecem o gênero e ao mesmo tempo em que alegam isso, tem como livro de cabeceira 1984, do George Orwell. Percebam que a pessoa SEQUER SABE do que se trata antes de começar a falar e a criticar.

O meu ponto é, se a ficção é um espelho da realidade, por que diabos a ficção científica também não é? Obviamente não somos todos viajantes do tempo ou vivemos em sociedades opressoras com tecnologias avançadas (ou defasadas), mas vocês realmente acham que uma pessoa que cria um mundo novo cria do zero? Acha que uma pessoa é capaz de criar todo um relacionamento numa sociedade e entre pessoas do nada?

Bem, é claro que não. O que a ficção científica faz, em geral, é pegar aspectos do nosso cotidiano e exagerar, para chamar a nossa atenção para um problema. É uma alegoria do nosso cotidiano, de forma a divertir e fazer pensar ao mesmo tempo. Algumas pessoas não gostam e não vejo problema nenhum nisso, mas acho que é uma das melhores formas para se aprender. Alguns autores conseguem captar tão bem a essência de algumas coisas que me fazem ficar surpresos com a sua genialidade e me perguntar “COMO???”. É sempre surpreendente pegar um livro que é “completamente fora da realidade” e se ver refletindo sobre as suas relações cotidianas ou sobre como um fato é parecido com algo que aconteceu na história recente.

O negócio todo é largar o preconceito e se jogar na história, procurando pelas semelhanças e diferenças com o nosso cotidiano.

E esperar sinceramente que em três mil anos não achem que nós vivíamos em governos distópicos, conversávamos com alienígenas e namorávamos vampiros.
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Acabamos o nosso papo por aqui! Quero que vocês digam nos comentários se gostaram e quero sugestões para outros temas, viu!? Qualquer coisa relacionada a livros e literatura que quiserem ver aqui, avisem, que nós vamos conversar. Como o nome da coluna bem diz, estamos aqui para bater um papo! E VOCÊ DECIDE!


Bell, fangirl, leitora assídua de ficção científica, livros sobrenaturais e teorias econômicas. Nas horas vagas, viaja no tempo em sua TARDIS.
Twitter: @mecutuca

Meu nome é Iris Figueiredo, tenho 21 anos e me formei em Comunicação Social pela UFRJ. Sou autora dos livros Confissões On-Line e Dividindo Mel. Além dos livros, também sou apaixonada por músicas, filmes e viagens. Esse é um espaço criado para compartilhar um pouco sobre tudo isso. Saiba mais.


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"Confissões on-line" é meu segundo livro e foi lançado em novembro de 2013. Saiba mais

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